Bom dia, boa tarde, boa noite, caros leitores. Bem vindos a Bruno Guedes e Resenhas e a primeira parte de nosso retorno às resenhas com a obra de Yann Martel, A Vida de Pi, um épico metafórico sobre um jovem indiano que se encontra à deriva em um bote no meio do Oceano Pacífico com um tigre. Sim, temos um longo caminho pela frente.

A Vida de... Pi?
A Vida de... Pi?

Piscine Molitor Patel é um indiano atualmente residente no Canadá que conta sua história a um escritor, assim criando o arcabouço narrativo dessa história. Pi – um apelido criado para fugir de uma embaraçosa situação que é difícil de explicar de relance, até porque não se traduz muito bem – era filho de um dono de zoológico em Pondicherry, Índia, e quando sua família tem de deixar o país por razões políticas, o navio levando os Patel e uma porção dos animais que foram vendidos para outros zoológicos ao redor do mundo acaba naufragando. Pi é o único sobrevivente a bordo de um bote com uma hiena, uma zebra, um tigre e um orangotango – ou uma orangotanga; mas tenho quase certeza que essa palavra não tem feminino. Logo os ocupantes do bote vão se minguando até que Pi se vê na complicada missão de dividir o pouco espaço que tem com um tigre adulto pelo que viriam a ser 7 meses. E é exatamente aí que a história fica interessante e eu devo parar devido ao risco de estragá-la para você. E eu sinceramente recomendo que você leia este livro.

Antes de mais nada, o filme também é bom, mas falaremos dele mais tarde. O resumo da ópera é: o livro é obviamente mais completo – como todo livro adaptado para cinema, concessões são feitas – e tem mais espaço e meio para deixar sua mensagem. Mas, como já dito, falaremos disto em outra ocasião. Voltemos ao livro.

A Vida de Pi começa com relatos da infância e adolescência de Pi na Índia, sua espiritualidade única – ele se converte em um cristão-muçulmano-hindu, em resumo – e vários capítulos sobre psicologia animal e administração de zoológicos que são extremamente instrutivos, senão um pouco anedóticos. E tudo isso serve de antecipação ao principal conflito do livro, i.e., como sobreviver em um barco com dois predadores famintos. Sim, esqueça o que você aprendeu com a Disney, hienas são predadores. De qualquer forma, se é possível imaginar, as coisas ficam ainda mais absurdas até o final.

O livro tem dois aspectos que são muito bem trabalhados. A vida de Pi, propriamente dita, é uma história de sobrevivência bem estruturada e, embora não seja real – pelo contrário, é surreal em vários pontos – é inspiradora. Por outro lado, há o aspecto filosófico do livro, e está em todas as partes, pois o narrador protagonista está a quase todo momento analisando sua própria situação e seus pensamentos. Existe uma grande mensagem na história, e no meio de tudo vários ensinamentos. Vale a pena ler, mesmo que não se concorde com tudo – eu pessoalmente, acho que Yann Martel não entende o que "agnóstico" significa, mas isso não é lá nem cá. O livro é, em todos os aspectos, sensacional.

É uma história que, ao fim, é sobre histórias e nosso prazer em consumi-las, nosso hábito de analisá-las e nossos critérios para aceitá-las. É uma história sobre perseverança, sobre Deus – em todas as formas, vai por mim – e sobre o poder do homem sobre si mesmo. E é uma história sobre como domar um tigre em alto-mar, também, embora eu recomende um grande aviso do tipo "não tente fazer isto em casa; resultados podem variar".

Enfim, o livro merece um grande 10/10. E quanto ao filme... nos veremos em breve sobre isto.