Oh, admirável mundo novo, que encerra criaturas tais
A Tempestade, William Shakespeare

Admiráve Mundo NovoAdmiráve Mundo Novo
Assim como a citação que encabeça esta resenha nunca é usada fora de um contexto irônico – e, neste ponto, se assemelha muito a What A Wonderful World de Louis Armstrong –, o cenário apresentado por Aldous Huxley é um tipo singular de utopia que rapidamente(talvez rapidamente demais) se desconstrói em uma distopia prazerosa. E, em algum lugar no meio disto tudo, tem uma história também.

Huxley nos apresenta um mundo – ou, mais especificamente, uma Inglaterra – em que não existem mais preocupações e todos são felizes. Em grande parte, porque a maioria dos cidadãos são criados e condicionados para amar justamente o que fazem, de forma que não há insatisfação mesmo entre os níveis mais baixos de um sistema de castas projetado desde antes do nascimento, no qual embriões são manipulados sem nenhum escrúpulo para que sejam tão subdesenvolvidos quanto necessário. Num mundo em que não existe inibição sexual, drogas psicotrópicas são controladas e distribuídas pelo governo para o bem estar da sociedade, Ford é o novo Jesus(sim, é sério) e todo entretenimento é vazio e gratuito, temos um grupo singular de indivíduos que se destacam na narrativa como possíveis protagonistas.

Bernard Marx é um Alfa-Mais-Mais que trabalha no departamento de psicologia que, por ter conhecimento pleno do condicionamento pelo qual passam todos os habitantes do mundo civilizado, questiona a legitimidade do bem-estar que ele vive. Isto e sua compleição física que não corresponde à sua alta classe o colocam em um estado de angústia mental constante. Helmholtz Watson, seu único amigo, é um escritor de jingles que é atacado pelo súbito desejo de criar arte. Lenina Crowne é uma Beta voluptuosa que, exceto por uma propensão incomum à monogamia, é perfeitamente normal e ajustada ao estilo de vido hedonista da sociedade do futuro. John é um selvagem com grande interesse por arte e religião que foi trazido à civilização por sua condição incomum de ser na realidade o filho de uma Beta perdida. E temos Mustafá Mond, um dos administradores mundiais e, a despeito de ser um claro antagonista, é um desgraçado magnífico. Mas, retornando a onde deixamos o último parágrafo, quem é o protagonista? Não é claro, na verdade. Bernard é uma voz da razão dentro do sistema, Helmholtz é quase ausente mas brilha bastante no último ato, e John é praticamente um espelho do leitor, uma interferência exterior que externa as visões da sociedade atual acerca da hipotética sociedade do futuro.

Mas, eu acredito, isto não importa realmente. Os personagens de Admirável Mundo Novo são quase descartáveis, pois a história não é, sinceramente, interessante. Huxley sofre do mal de outros grandes criadores de universos, o de ter um mundo fascinante para apresentar, mas incapaz de escrever uma história que não seja ofuscada pela complexidade do ambiente em que se passa. Assim o que deveria ser um pano de fundo chama mais a atenção do que os atores no palco. Em outras palavras, o que realmente importa em Admirável Mundo Novo não é a enfadonha narrativa, mas a ideologia e a proposição futurista por trás. Diga-se de passagem, cheguei a nutrir a noção de que se Huxley tivesse um elenco mais variado de personagens, se estendendo por todo o espectro de castas da nova ordem, a história poderia ser mais interessante, mas percebi que, devido à própria premissa da sociedade por ele proposta, uma personagem Épsilon, Delta ou mesmo Gama com a individualidade necessária para ser de algum interesse para o leitor destruiria a noção principal de uma sociedade que aceita trocar individualidade por estabilidade. Portanto me conformei que a história de Admirável Mundo Novo realmente não tem salvação.

Assim como 1984(que será resenhado também, no futuro próximo), Admirável Mundo Novo se destaca mais pelo subtexto do que pela história. A sociedade utópica/distópica criada por Huxley é um dos modelos universalmente aceitos que nos mostram que não se cria uma sociedade estável e perfeita sem sacrifícios. Se no IngSoc este sacrifício era a liberdade, no Estado Mundial é a individualidade e qualquer sensação de satisfação que ultrapasse a superficialidade hedonista.

Oh, admirável mundo novo, de fato.