Bom dia, boa tarde, boa noite e bem-vindos novamente. Hoje falaremos da adaptação cinematográfica de A Vida de Pi, As Aventuras de Pi, que imagino que só tem esse nome por questões nebulosas de licenciamento da qual eu sinceramente não entendo patavina. Enfim, As Aventuras de Pi!

As Aventuras de Pi... ou A Vida; tanto faz
As Aventuras de Pi... ou A Vida; tanto faz

A história do filme em si difere pouco do livro. O artifício estrutural é mais pronunciado, pois diferente do livro que nos deixa esquecer que esta é uma história sendo contada a um escritor, o filme nos transporta de volta para o presente onde a história está nos sendo contada. Fora isto, há, obviamente, uma perda de detalhes em vários pontos, o filme passa bem rapidamente pelos trechos mais discursivos e menos narrativos, mas isto tudo é absolutamente normal visto que, sendo um filme, ele deve focar mais na história, embora não deixe a mensagem escapar. Em essência, é uma boa adaptação, com algumas ressalvas.

A primeira é a adição de um romance que não estava na história original, e acaba sendo... bem, completamente inconsequente. Não há razão para inclui-lo no filme – pois ele não está na história original – e também não tem nenhum impacto no final das contas. Considerando-se que em qualquer adaptação cinematográfica detalhes precisam ser cortados para economizar tempo de certa forma limitado, uma adição sem sentido é, no mínimo, intrigante.

A segunda é a mudança de um dos momentos mais marcantes da primeira parte da história, a lição dada pelo pai de Pi a seus filhos sobre zooantropomorfização – em outras palavras, o animal visto pelos olhos do homem – que, enquanto no livro seja um momento praticamente aleatório, preventivo até, no filme é motivado por uma ação que definitivamente não cabe no personagem. E, como se não fosse o bastante, diminui um bocado a revelação da identidade de Richard Parker.

E finalmente, eu acho que perderam uma ótima oportunidade de dramatizar a "segunda história", o que eu acho que teria sido visualmente mais marcante. Infelizmente tenho de ser vago para evitar spoilers, mas confie em mim.

Porém, nem mesmo estas lombadas na história ficam no caminho do que eu acho que é o mérito maior do filme: ele é espetacular. Quando se adapta uma obra com pouco foco em história propriamente dita, o cinema convencional, que é principalmente orientado a narrativa, se perde. A melhor saída, portanto, é unir uma mensagem (em intenção) profunda com visuais espetaculares. Além disso, é uma boa escolha para tentar representar em imagens o que teria de ser dito em páginas e páginas de monólogo. Aliás, um dos pontos em que o filme de fato faz uma boa adição se refere à "ilha dos suricatos", que infelizmente não poderia comentar em mais detalhes sem estragar uma boa parte da história, mas eu garanto que foi uma idéia bem genial que compensa o fato de que o momento mais "mas hein?!" da história foi praticamente mencionado de passagem no filme.

E, a troco de nada, a confecção e atuação dos animais – que não estão ali de verdade – é praticamente perfeita. Estão de parabéns.

Enfim, o filme é muito bom. Recomendo fortemente, mas recomendo ainda mais o livro, pela óbvia maior atenção aos detalhes. Ambos são uma experiência incrível, e este filme ganha meu 8.5/10, por não ser o livro. Sinceramente, não deixe o livro passar, se você se interessar pelo filme.