Saiu na BBC em julho, mas apareceu hoje de novo por aí então, porque não? Tenho algumas coisas boas pra falar sobre isso.

Essa é a cara da figura
Essa é a cara da figura
A história é a seguinte: o sujeito em questão brigou na justiça pelo direito de usar um escorredor de macarrão como chapéu na foto da carteira de motorista. Sua justificativa era de que se trata de um símbolo religioso, logo deveria ser permitido como é nos demais casos(digamos, véus). A parte mais bizarra é que este argumento em si não é exatamente absurdo, tanto que ele ganhou a causa. A religião em questão trata-se do "pastafarianismo", mas eu gostaria de deixar isto pra depois. Também faz todo o sentido que o cara seja ateu. Você já vai entender, mas pode ler a notícia na íntegra aqui.

O pano de fundo da história toda foi quando em 2005 a secretaria de educação do estado do Kansas aprovou o ensino do "design inteligente" como uma alternativa para a evolução nas escolas públicas, sob o argumento espúrio de que "é preciso ouvir todos os lados da questão". Pois bem, nisto o senhor Bobby Henderson escreveu uma carta-aberta satírica onde comparava o design inteligente a acreditar que um deus de macarrão e almôndegas(o "Monstro Espaguete Voador") criou o mundo e todas as criaturas vivas, e exigiu que ensinasse também o "Mostro-Espaguete-Voadorismo" nas escolas. Daí a coisa se alastrou. Mas até aí tudo bem.

Entenda, leitor: em casos onde a verdade é desconhecida e não há mais do que suposições, é válido ensinar os dois(ou três, ou quatro, ou o diabo) lados da moeda. Mas quando você está botando na balança de um lado uma teoria científica estudada e revisada profundamente, a qual se prova por evidências e fatos; e do outro uma hipótese espúria sem qualquer evidência que a suporte(e que fica ainda pior se você coloca no meio as teorias de "terra jovem", mas isso é outra história) e finge que os dois lados estão equilibrados, sinto dizer mas seu fio de prumo está torto. Muito. Daí a indignação compreensível e bem humorada ser cabível. Repetindo: até aí tudo bem.

O problema é quando a coisa se alastrou e originou o "Pastafarianismo", que até certo ponto ainda era apenas uma reação bem humorada. O problema começa quando os militantes entram em cena, e ateus militantes são tão ruins quanto qualquer tipo de militante religioso. Aparentemente a militância come regiões do cérebro que cuidam de injetar noção e senso de ridículo no pensamento da pessoa. Então o limite entre ações inteligentes e pertinentes e coisas que fazem o sujeito parecer uma criança fazendo pirraça se torna um borrão. Aí o sujeito acha que está sendo engraçado, mas a reação final é de vergonha alheia. Pior: de gente que devia concordar com ele.

Admiro muito Carl Sagan. Seu livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios" é, sem dúvida, um dos melhores livros sobre ciência já publicados. E outra coisa muito admirável é seu modus operandi de cético que sabe argumentar sem diminuir a oposição. Carl era quase o oposto de um militante, era carismático e ao invés de tratar a situação como uma guerra entre "nós" e "os outros", ele tentava entender o ponto de vista dos "outros". E, sem dúvida, ele teria o bom senso de não ocupar o sistema judicial com uma causa imbecil em nome de uma religião que mesmo seus crente não acreditam. Isso, meus amigos, já é achar que é bonito ser feio.