Bom dia, boa tarde, boa noite, caros leitores. Em meus anos adolescentes, um professor uma vez mencionou um filme sobre os perigos de seguir aqueles que são demasiado convincentes sem fazer perguntas. Um filme sobre um professor que, com o objetivo de ensinar esta mesma lição a seus alunos, criou um experimento com consequências extremas e quase incontroláveis. Felizmente, apenas quase. Não revelarei ainda quais foram estas consequências, mas a questão inteira era uma materialização do ditado clássico: aqueles que não conhecem a História estão fadados a repetir seus erros. Anos mais tarde eu me depararia com o mesmo filme – com exatamente o mesmo nome – sendo anunciado como um lançamento. Mais tarde soube que era uma releitura da mesma história – aliás, uma história real – e eventualmente assisti este novo filme.

Senhoras e senhores, A Onda.

A Onda
A Onda

A Onda se passa em uma escola na Alemanha onde, bem a história se mantém basicamente a mesma. Um professor inicia um experimento prático com seus alunos, como parte de uma lição sobre autocracia. Começando pequeno, com um "uniforme" – calça jeans e camisa branca –, um símbolo e um nome – obviamente, "A Onda" –, o experimento não só causa uma diferença na atitude dos alunos, que se tornam mais centrados e mais unidos como integrantes do grupo, mas também começa a lentamente se espalhar para fora das paredes da escola. O final da história, como apontado acima, é que as consequências se expandem além do previsto e o ponto da história não poderia ser mais claro.

O ponto – e devo, antes de mais nada, avisar ao leitor incauto que, se ele quiser evitar um grande spoiler, este é o momento para apenas passar os olhos sobre o texto até o próximo parágrafo; prometo que a partir daí voltarei a evitar o bombástico final desta alegoria; continuemos, então... – é que, por mais que olhemos com superioridade para os erros de nossos ancestrais, por mais que fiquemos a imaginar, com um certo tom de escárnio, como eles poderiam ignorar verdades tão óbvias para nós, é perfeitamente possível que, quando estamos nós envoltos no mesmo contexto que outrora eles estiveram, acabemos por cometer os mesmos enganos e defender os pontos de vista errados. Quando o professor Wenger começa a efetivamente recriar o nazismo em sua sala de aula e, pior, realmente consegue e vê que seus próprios alunos estão relutantes em abandonar A Onda mesmo depois do experimento finalizado e revelado, percebemos que é fácil julgar quando se olha de fora, de um local confortável no espaço e no tempo. Difícil é ter a mesma mente quando a sociedade se curva aos ideais que até fazem sentido no momento e no local certos. Ou errados.

A mensagem de A Onda não varia ao longo das versões. Foi a mesma no especial original para TV, é a mesma no atual remake e ambos refletem o experimento original de Palo Alto em 1967. A execução deste filme, em particular, é excepcional – não que seja mal feita em nenhuma das outras adaptações; não cheguei a vê-las – e tem todo o impacto súbito que a alegoria precisa. É uma mensagem que não deve ser esquecida, sob a pena de nos vermos arrependidos de a termos esquecido, quando a situação novamente se apresentar a nós. Uma suprema lição de História, enfim.

Além disso, o filme também não é ruim. Os conflitos pessoais de cada personagem, o modo como eles se identificam e reagem ao experimento, e como suas atitudes são afetadas pela Onda, tudo isso é bem escrito e mantém o espectador dentro da história, contribuindo para a mensagem final. Afinal, novamente, é sobre estar dentro da História, ao invés de assistindo de camarote direto do futuro.

A Onda é um filme fantástico, um remake que não parece deixar a desejar em relação a não somente recontar uma história pré-existente, mas adicionar uma dimensão a mais a ela. Afina de contas, esta é uma história que se passa na Alemanha. Se você não leu o parágrafo spoiler, isto é, sim, uma pista. Mas vá fundo. Este é um filme que merece um belo 9/10. Não sei dizer exatamente porque não um 10, mas eu pisarei com cuidado.

E um bônus: uma das atrizes do filme é brasileira. Tente adivinhar quem. Por incrível que o pareça, eu a identifiquei logo de cara.