Sendo sincero, esse post está um bocado atrasado, mas isso é porque infelizmente eu não tenho a vida ganha, então em geral meu tempo livre já é bem compartimentado, e até eu retomar o raciocínio o dia já acabou. Pra você ver, muitas vezes minhas melhores idéias surgem no ônibus – e vão embora antes do meu ponto. Mas como eu não estou aqui pra reclamar da minha vida – que, aliás, está até muito boa apesar dos pesares – mas sim pra entreter vocês, deixa eu retomar o raciocínio.

Então, não faz muito tempo eu tive uma daquelas epifanias que começam com "é isso que tem de errado com a humanidade". A bem da verdade, essas são bem menos frequentes do que eu esperava, mas vamos por partes. Vamos a uma aula de geografia, bem rapidinha.

A Terra, como todos sabemos, tem seu eixo inclinado e por isso por uma boa parte do ano um dos hemisférios recebe mais energia do sol do que o outro. Isto dá origem às estações do ano, que, como sabemos, não fazem a menor diferença nesse país tropical. Exceto que faz. Como uma boa parte do país ainda se encontra na região tropical e alguma parte ainda na subtropical, existe uma diferença perceptível na duração dos dias e noites durante as estações extremas, i.e., verão e inverno.

O que eu gostaria de deixar claro neste exato momento de uma vez é que tanto verão como inverno são estações regulares que começam e terminam sempre na mesma data, pelo menos no nosso calendário oficial. Vamos ignorar a precessão dos equinócios por ora e nos ater a este fato.

Dando seguimento, a chegada e saída do verão também trazem esta instituição questionável – que eu não questiono, não vejo por que, mas há quem o faça – que é o Horário de Verão, quando se adianta o relógio uma hora um pouco antes que o verão comece, e atrasa-se esta hora novamente um pouco após o verão terminar. A data varia porque há o cuidado de se fazer com que a troca de horário ocorra sempre num final de semana, para evitar as confusões óbvias. É compreensível que estas duas mudanças de horário sejam noticiadas regularmente nos canais de televisão, afinal pode sempre haver alguém que ainda não sabia, e não faz mal avisar.

O que não é compreensível é que todo ano – todo ano – tem sempre uma matéria nos jornais sobre isso (e isto, em si, é até compreensível) e sempre, sempre, tem um cidadão que comenta algo na linha de "quando você já está acostumando, o horário muda de volta".

Pausa. Pausa para massagear as têmporas em sinal de ênfase.

O que eu realmente não entendo, sobre essas pessoas em geral, é como um sujeito ou uma senhora – ou uma senhorita – que já passou mais de 20, 30, 40 verões, é capaz de passar todo ano pelo mesmo processo e conseguir não se acostumar a algo tão incrivelmente corriqueiro. Como é possível que tal pessoa não se habitue com algo que é pelo menos tão velho – e muito provavelmente mais – quanto si mesmo.

E aí você percebe que nosso problema é conseguir ser capaz de esquecer das coisas mais simples e habituais. É conseguir se acomodar tão rapidamente às coisas que tem que ser lembrado repetidamente de coisas que se repetem regularmente todo ano. É ser incapaz de entender o clima, especialmente quando ele é ciclicamente catastrófico.

E me despeço aqui, porque prefiro não fazer pouco da tragédia alheia. Mas que nossa memória é estranhamente curta, isto é.