Existem algumas palavras que mudam de significado – nada mais normal, aliás, do que palavras mudarem seu significado – que me deixam um bocado desconcertado por constatar que o novo significado é nada mais nada menos que uma total esculhambação do original. "Meme" é uma que passou de conceito científico a sinônimo para "estereótipo de personagem em quadrinhos extremamente mal desenhados". "Troll" perdeu completamente a nuance da etimologia(que, a propósito, se refere a um método de pesca, não à criatura mítica) e se tornou indistinguível de "hater", que já é basicamente qualquer pessoa que discorde de você, e não alguém que discorde de coisas como reação padrão.

Porque, veja bem, há uma diferença entre não gostar de algo por razões, e não gostar de algo porque sim. E quando se deixa os fervores falarem mais alto, em geral a diferença se torna cada vez mais tênue e tals. É o tipo de coisa que torna "crítica" um sinônimo de "ofensa". E, venhamos e convenhamos, isso meio que faz mal pra essa minha linha de trabalho. Porque, por mais estranho que pareça, críticas negativas conseguem em geral ser mais divertidas do que críticas positivas. E, confesso, eu gosto desse tipo de gente que se dedica à arte de fazer críticas que, se não são humoristicamente negativas, tem um completo tom de galhofa até quando estão falando de algo que é, analisando todos os pontos e ângulos, objetivamente bom. Mas este tom negativo em geral é raro, porque é bem mais fácil invocar humor às custas de um alvo que claramente merece a ridicularização.

E também é bem mais fácil confundir o sucesso causado pelo humor aliado à crítica negativa(mas bastante objetiva) com um sucesso causado pelo humor da negatividade em si. Em outras palavras, acaba sendo mais legal odiar coisas, porque é isso que as pessoas legais fazem. O que no finas das contas nos leva de volta ao início do texto, onde a crítica e o simples fato de não se gostar de algo é vista com maus olhos porque é usado como um atalho inepto para um círculo social que se desenvolve ao redor e deturpa a mensagem original da crítica negativa como entretenimento.

Porque, no final das contas, toda mensagem se deturpa ao passar para frente. É a base do telefone-sem-fio, certo?

O que isso tem a ver comigo é que, bem, como eu disse logo há pouco – vocês sequer estavam prestando atenção? –, eu gosto de críticas negativas. E entrementes, se você der uma passeada pelos nossos arquivos, vai notar que toda análise aqui varia em uma faixa que vai do (quase ofensivamente) neutro ao excelente. Acho que a única resenha que tinha um tom inegavelmente negativo foi uma defunta resenha de "Ant Nation DS", que realmente era uma bela vergonha. E talvez aquela nota sobre o "HumorLeaks"(que não atualiza faz dois anos, tanto que minha resenha aparece no Google antes dele na pesquisa pelo nome do site). A questão é que me ocorreu a óbvia questão de porque eu não me dedico a resenhas negativas, dado meu gosto em consumi-las. A razão na verdade é simples: eu não sou muito bom nisso. Além de me causar imensa preguiça a idéia de consumir algo que eu não goste de propósito e despender esforço nisso para fazer uma resenha que preste, eu não acho que eu tenha em mim o dom de fazer uma resenha de algo que você não vai querer consumir algo que valha o seu tempo. Me parece mais lógico recomendar algo que vá valer a pena, de uma maneira ou de outra.

Em outras palavras, eu não sou legal o bastante pra me dar ao luxo de oficialmente não gostar de coisas. Não ainda, pelo menos. Assim como este editorial nasceu, esta idéia me cruza a cabeça de quando em quando. Até porque eu já tenho um personagem descartável que se dá exatamente para este tipo de humor cretino. Só me falta, creio eu, a confiança de achar que meu profundo desgosto será divertido para você. E neste dia este site provavelmente será bem mais engraçado e interessante.

Enquanto isso, aproveitem as resenhas. Elas são meio sem graça, mas são de coração. :)