Eu planejava escrever algumas belas e longas palavras a respeito da influência de Legião Urbana no meu background musical – e certamente no de muitos jovens deste país – mas acho que isto seria simplesmente adiar o óbvio que já está sendo apontado pelo título da resenha. Faroeste Caboclo, esta obra ímpar de Renato Russo, é um estranho flerte do rock nacional dos anos 80-90 com o rock progressivo, uma balada extraordinariamente longa, com uma estrutura incomum – tinha uma cadência característica, mas nenhum refrão – e um enredo pendendo para a tragédia. E por décadas a canção foi repetida e imaginada nas cabeças juvenis de milhares, milhões de fãs. E algo como 20 anos depois, estes devaneios se tornariam realidade nas mãos de Renê Sampaio.

Senhoras e senhores: Faroeste Caboclo, finalmente em filme.

Participação especial da Winchester 22
Participação especial da Winchester 22

Em Faroeste Caboclo, João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) é um pobre-diabo que foge de Santo Cristo para Brasília em busca de uma vida decente com um parente distante, Pablo (César Troncoso), mas acaba se metendo no mundo do crime, até conhecer a bela Maria Lúcia (Ísis Valverde). João tenta se reformar, mas quando a vida parece não dar sinais de melhorar, ele adentra mais no negócio do tráfico, e conquista um perigoso rival, o traficante de renome Jeremias (Felipe Abib), e precisa se sacrificar para reaver o amor de sua vida. Enfim, esta foi minha tentativa de prover um resumo a vocês que não se bastasse a "ouçam a canção original de Renato Russo." Espero que tenha sido bom para vocês.

Mas então, pode-se aproximar a análise de Faroeste Caboclo sob duas óticas: primeiro, como adaptação; segundo, como um filme em seu próprio mérito.

Como adaptação, a verdade clara e simples é que nenhum diretor ou redator será tão bom quanto a sua imaginação. Portanto é óbvio que há motivos para se sentir insatisfeito com o resultado final. Mas, de um ponto de vista objetivo, a adaptação é bem fiel ao material original. O filme não segue a ordem cronológica da letra à risca, iniciando em algum ponto perto do meio da música quando João de Santo Cristo chega em Brasília, e dispõe de alguns flashbacks para contar toda a confusão que são as estrofes iniciais da música. Daí pra frente há adições feitas para que a história contada em versos se torne uma narrativa conexa em uma hora e alguns bocados, os personagens coadjuvantes ganham personalidade e caracterização decente. O fã de longa data notará, claro, a falta de alguns trechos específicos da música na história adaptada, e pode-se perguntar porque seria necessário remover trechos de uma obra que está sendo adaptada para um formato mais longo que o original. Isso é justificável, mas também é a falta de tais trechos, que não se encaixariam bem na narrativa, não seriam apropriados(censura 16 anos, veja bem) ou simplesmente não eram importantes. Em suma, Faroeste Caboclo, em sua versão cinematográfica, é uma adaptação digna deste clássico do rock nacional do final do século XX.

Mas, se você fizer muita questão de uma adaptação verso por verso, você pode curtir aqui uma animação do Peixe Aquático.

Como um filme independente de tudo o mais... na verdade, é estranho pensar em Faroeste Caboclo como um filme destacado de seu passado como uma balada transgressiva. É difícil imaginar que qualquer pessoa que se interessaria por este filme não teria nenhum conhecimento do material original, ou sequer ficaria tendo conhecimento. Mas, como crítico, tenho de fazer este questionamento incrível, impossível, inimaginável, e portanto responder: Faroeste Caboclo, fora ser uma adaptação de uma das músicas mais conhecidas do Legião Urbana, é um bom filme. E a resposta é sim. Tem uma estrutura em três atos, personagens relacionáveis, tensão, romance, conflito, e muito conflito, e um final pungente. Não é exatamente uma obra-prima da dramaturgia nacional, mas acho que todos concordamos que o valor de Faroeste Caboclo reside, em grande parte, por ser uma adaptação muito esperada, e não simplesmente por ser uma história de intriga, paixão e crime no centro-oeste brasileiro.

Por fim, se Faroeste Caboclo é um filme que você deseja assistir, você provavelmente está indo pelo fato de ser uma adaptação cinematográfica desta peça do folclore moderno que é o épico de João de Santo Cristo. Sendo assim, aconselho que não tenha apreensões quanto à qualidade da adaptação em relação ao material original. Acalme-se, e tenha certeza de que o resultado jamais será tão bom quanto o que você esperava – novamente, a imaginação é o melhor dramaturgo –, e não deixe que isto fique no caminho de sua diversão. Se eu, que não sou dado a nostalgias, deixei que este sentimento me levasse no na onda de Faroeste Caboclo, acho que não vai ser nenhum problema para vocês também.