Comprar livros sem praticamente nenhum conhecimento prévio é uma aventura. Na época me que Harry Potter aparecia no Brasil(e o quarto livro da série causava loucura na Inglaterra e nos EUA) apareceu outro livro que, embora também fosse fantasia para jovens tratando de mundos invisíveis praticamente convivendo ao nosso lado, tinha um tom bastante diferente e uma mitologia ainda maior do que o universo de Rowling. Seu nome era Abarat e deixaremos a resenha desta obra em si para outro dia. Em resumo, foi uma feliz compra que fiz na sorte e nunca me arrependi. O terceiro livro saiu no ano passado e estou saboreando-o aos poucos.

Enfim, na Era da Informação, onde o conhecimento – e também a desinformação – estão ao alcance de praticamente todos(afinal, sejamos realistas), é fácil se informar antes, até mesmo no momento crucial da compra, com o advento dos aparelhos móveis e a ubíqua internet sem fio. Às vezes, compro um livro já sabendo de partes cruciais do mesmo, mas como desenvolvi uma imunidade a spoilers(também deixaremos isto para outro dia) isto não é problema.

Hater, capa brasileiraHater, capa brasileira
Tudo o que eu sabia sobre Hater, entretanto, veio de sua breve entrada no imenso catálogo da ficção e seus truques, o TV Tropes. Cuidado ao clicar, o site é bastante viciante. Também não li os spoilers(que ficam escondidos em texto transparente, para não pegar incautos leitores despreparados), e estranhamente decidi que compraria o livro e descobriria do que se trata. E descobri.

Se você estiver com pressa, resumo: é decepcionante.

O triste de Hater é que David Moody criou um conceito extremamente interessante. O cerne da história segue as convenções do recorrente tema do "apocalipse zumbi", mas com um detalhe genial que comentarei mais adiante. E, além disso, Moody modifica completamente a história e muda o conflito principal de repente tornando a experiência ainda mais emocionante à medida que a história se aproxima do fim. Mas no meio da execução, alguma coisa deu muito errado. Tentemos compreender.

Hater é contado do ponto de vista de seu personagem principal Daniel, um pai de família inglês que trabalha em um emprego frustrante para sustentar sua mulher e três filhos. E de repente uma epidemia de ódio começa a atacar pessoas aleatoriamente, tornando-as criaturas que atendem apenas a um instinto súbito de matar aqueles à sua volta com o que tiverem em mãos – ou mesmo suas próprias mãos. À medida que a situação escala e a epidemia se espalha, o país começa a entrar em crise, a sociedade começa a ruir até que o exército se vê obrigado a agir para o bem da população. Apenas para relembrar, já toquei no fato de que esta é uma variação da história de zumbis típica.

Mas há vários toques geniais na fórmula. Como os capítulos que marcam o início de cada dia da narrativa, que contam um episódio independente sobre uma pessoa que contrai a misteriosa doença. Aprendemos que o instinto de matar deriva, aparentemente, não do ódio mas de um instinto de auto-preservação exagerado. Além disso, o que torna uma história de horror já batida mais emocionante e capaz de manter o leitor sempre tenso é o fato de que não existe absolutamente nada que possibilite à população não infectada identificar "o inimigo". Os haters, como são chamado, são idênticos a qualquer outra pessoa, exceto pelo impulso homicida súbito. Isto é o que realmente cria a tensão extrema da história, e é inclusive o que ironicamente impede que as pessoas se defendam da ameaça. E isto é genial.

Por outro lado, Daniel, nosso narrador, é quase insuportável. Ele frequentemente repete informação que já sabemos porque foi dita páginas, parágrafos ou mesmo frases atrás, o que é a maneira natural e coloquial de uma pessoa falar, mas em um livro se torna enfadonho e interrompe o progresso da história a todo tempo. Além disso, ele simplesmente não para de reclamar, o que me lembra Holden Caulfield de O Apanhador no Campo de Centeio, mas Holden tinha a desculpa de ser um adolescente. Daniel é simplesmente chato. Mas isto não é o pior.

O pior é definitivamente o final. O grande suspense da história é que a todo momento paira a dúvida do porquê e como isto está acontecendo, e Moody decide deixar esta revelação para o penúltimo capítulo. O problema é que não só a explicação final é simplesmente... insatisfatória, que me deixa com o gosto ruim de uma desculpa que só gera mais dúvidas, mas também é dada da maneira mais artificial possível. Não há história que salve um final tão – com o perdão do linguajar – broxante.

Enfim... comprar um livro do qual pouco se conhece é uma aventura. Uma aventura que pode ser uma recompensa em si, e pode obviamente ser o oposto. Hater me deu, pela maior parte do tempo, a impressão de ser uma história que exploraria todo o potencial que tinha à sua disposição. E infelizmente, abandonou todo este potencial no final da jornada. É uma idéia boa, mas boas idéias são apenas a metade do caminho.

Veredicto: 5.0/10