Uma confissão: adoro literatura juvenil – também conhecida com YAF, "Young Adult Fiction". Não que eu seja cego aos tropos e truques do gênero, mas a verdade é que a coisa toda é, em geral, divertida, e em mais de um sentido até – analisar o zeitgeist adolescente como adulto é fascinante, pra dizer o mínimo. Esta pequena introdução, entrementes, apenas serve para você se preparar para a idéia de que eu estive lendo Jogos Vorazes por pura e espontânea vontade.

Capa
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O que temos em Jogos Vorazes é uma distopia pós-apocalíptica onde a América do Norte se reduziu a uma grande metrópole denominada Panem – sim, de panem et circensis – e treze, digo, doze distritos que se submeteram a ela depois de um conturbado período de conflito que terminou em tragédia, daí "treze, digo, doze". No distrito 12, onde se minera carvão, vive Katniss Everdeen^*, que se voluntaria para entrar nos titulares Jogos Vorazes no lugar de sua irmã mais nova, sendo os jogos um reality show onde 24 jovens são jogados dentro de uma arena para se degladear até que sobre apenas um.

O que tenho a dizer sobre Jogos Vorazes? Bem, em sua maioria boas coisas, para ser sincero, então vamos às partes ruins. Primeiro, Katniss Everdeen. Apesar do nome fantasticamente fabuloso de heroína fantástica, Katniss é, em grande parte, uma mala. Em verdade, considero ela uma versão feminina e sobrevivencialista de Holden Caulfield de O Apanhador no Campo de Centeio – voltaremos em Salinger outro dia, aliás. Para aqueles que não leram este clássico, explico: Katniss é nossa narradora e protagonista e passa a maior parte do tempo sendo extremamente condescendente com relação a quase tudo, com raras exceções. Estranhamente, uma destas coisas é sua irmã, o que só aproxima o paralelo com Holden... mas voltando ao assunto, se o livro tem de sobra uma narração irritantemente adolescente, falta um senso de simpatia por praticamente qualquer outro personagem que não seja Katniss. Embora isso seja em grande parte consequência da narração em primeira pessoa, isto faz uma grande falta.

Porque os Jogos Vorazes em si são brutais. Todavia não seja extremamente gráfico, o livro não nos poupa da situação cruel que presenciamos. Temos na Capital uma sociedade que chegou a tal ponto de considerar essa desesperada batalha de jovens anual como um esporte e uma diversão como outra qualquer. O clima do livro é de total desconforto, e os Jogos em si são interessantes, a sociedade de dentro e fora da capital é intrigante pela forma como se desenvolveu depois de qualquer que tenha sido o cataclisma que reduziu a terra às condições em que se encontra, existe um universo fictício em Panem – e no resto da terra, pois afinal alguma coisa deve ter sobrevivido em lugares como a China ou a Rússia – esperando pra ser explorado e expandido... mas como passamos a história toda dentro da mente de Katniss, temos uma visão limitada. É um artifício que alimenta a imaginação, mas acaba causando alguma frustração porque afinal nunca sabemos nada sobre Foxface, Thresh ou aquele rapaz do distrito 6 que morreu praticamente logo que entrou na Arena.

Mas por outro lado, Jogos Vorazes é apenas a primeira parte de uma trilogia, e ainda tenho que continuar minha jornada pela mente de Suzanne Collins – que é a autora americana que escreve da forma mais britânica que eu já li. Talvez haja muito mais a ser desfrutado na obra completa, e neste sentido Jogos Vorazes é uma ótima introdução. Por si só, bem, tem uma trama emocionante, a tensão nos Jogos é constante e Katniss é suportável quando se concentra na própria sobrevivência. Mérito seja dado, ela é uma heroína forte. Veremos como a história realmente termina, e por ora... bons jogos, e que a sorte esteja sempre ao seu lado.

Veredicto: 7.5/10


* Há alguma chance que você não esteja reconhecendo os nomes nesta resenha; é porque, por opção própria, eu li o texto original em inglês.