A nostalgia é um sentimento que considero, sinceramente, falso. Todo o princípio por trás do sentimento de saudade e quase desejo por um tempo que se foi e não volta mais é principalmente causado por dissonância cognitiva, ou a incrível habilidade humana de enganar a si próprio como ninguém mais seria capaz. Explico, claro. Eu sempre explico.

Peguemos um exemplo cultural, que será mais fácil de explorar. A reclamação onipresente é que a música "de hoje" é uma bosta, que os jovens "de hoje" não tem nem um pingo de bom gosto e "no nosso tempo" é que era bom. Pois bem. A primeira parte da dissonância é simples: dá pra ver que a produção musical atual está longe de ser unanimemente boa. É fato, não discuta. A segunda parte é que é mais complicada um pouquinho. Tem a ver com o fato de que nossa memória é uma coisa horrível de ruim.

Fato é que, como seres humanos, nossa memória é bem falha. O cérebro normalmente usa truques e pequenas gambiarras para se lembrar de coisas, e quando não lembra ele simplesmente inventa e, se trucado, finge que não é com ele. Pois bem, com tão pouco espaço, é óbvio que as primeiras coisas a serem jogadas fora são aquelas por que não nos interessamos. Isto inclui, obviamente, música ruim(apesar do fato de que música ruim gruda na cabeça, nem todas podem grudar ao mesmo tempo). Só nos lembramos do que é bom e do que gostamos. E isso se propaga de tal forma que é difícil nomear um cantor desafinado da década de 50, porque todos eles foram esquecidos coletivamente. Puf. Adeus.

Daí a coisa ganha um ar de fato, mas o real fato é que estamos vendo que a música de hoje é composta principalmente por merda, enquanto que lembramos que, no nosso tempo e antes, era tudo extraordinário. A falta de registros ou simplesmente o trabalho que dá uma pesquisa decente legitima a nostalgia e acreditamos que, de fato, antigamente é que era legal. E agora chegamos no título.

Dadas as condições para que a nostalgia se instale, a internet poderia ser a cura para isso? Imagine-se contando para seus netos como a música de hoje é que era "o bicho" e essa coisa que chamarão de "Renecoteco Paulistano" ou o que quer que seja que inventem nos próximos quarenta anos é só barulho e invencionismo que prospera só porque a mídia dá atenção. Imagine então seus netos pegando um tablet/smartphone/"wristpad", abrindo o YouTube e nos mostrando um vídeo do Restart, do Justin Bieber, da Ke$ha ou, horror dos horrores, de algum funk carioca(qualquer um; escolhe). Sua nostalgia é inválida e a prova está logo ali ao alcance de uns cliques.

É tudo ficção especulativa, mas a internet pode ser o fim dessa espécie de nostalgia que ignora que a Lei de Sturgeon – que prega que 90% de tudo é porcaria – tenha tido a mesma força no passado como no presente e no futuro da mesma forma que criacionistas negam que tenha existido qualquer coisa no passado infinito como haverá para todo o sempre no futuro. Que não devem ser todos, mas dane-se, a analogia é minha e já estou gastando espaço demais.

Existem outros motivos para nostalgia – a associação com a própria juventude sendo o maior e talvez mais "legítimo" deles. Existem várias razões para que um futuro como o descrito seja inviável – como a incapacidade de manter os registros da história integrais e intocados por tanto tempo, ou a deterioração da informação mesmo que em forma digital. Mas o argumento está posto. Este editorial cumpriu sua função.

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