Antes de mais nada, coloquemos em pratos limpos: eu devia comentar notícias do Brasil e do mundo. Infelizmente, nosso contato com o mundo parece estar, digamos... abaixo de satisfatório, e assim é difícil comentar notícias. Há que se ter algum conhecimento de causa. Diante de duas soluções possíveis, escolhemos me alocar para um editorial semanal sobre... qualquer coisa, mas provavelmente sobre comportamento na internet.

Ainda bem, porque a outra opção era me despedir.

O editorial será mais ou menos como o blog era antes deste processo de... "resenhização". É um texto sem forma certa, sem guias e sobre praticamente qualquer coisa. Então, pra vocês que sentiram falta das nossas divagações sem sentido... taí! Aproveitem!

Tudo acertado, vamos começar.


A humanidade é principalmente composta de pessoas horríveis. Ou, melhor dizendo, pessoas que, se tivessem a oportunidade de sair impunes, agiriam da pior forma possível. Uma prova(ou talvez uma mera consequência) disto é que bebês aprendem a mentir em vantagem própria por volta dos seis meses de idade. Mas, claro, um dia o bebê cresce, amadurece, e este hábito de mentir obviamente não desaparece. Na verdade, ele se refina. Daí surgem conceitos relativamente complexos como hipocrisia. Como todo mundo sabe, por alto, hipocrisia é a arte de pregar uma coisa e agir de forma diferente, até mesmo oposta. Não se engane, hipocrisia não é uma coisa boa. Não é legal ser hipócrita. Acho que este é um ponto que tem de ficar bem claro.

Mas é preciso ser justo: nem sempre o que parece hipocrisia o é, e daí surgem 3 falácias que acometem aqueles que acusam outrem de hipocrisia. É importante conhecê-las porque, como todos sabemos, na internet o mais importante em um debate é conhecer as falácias de argumentação, e com elas provar que seu oponente está errado em princípio. Estar certo é apenas um detalhe. Mas onde eu estava? Ah, sim, falácias...

Começamos pela falácia da hipocrisia das multidões. Ocorre quando se trata um grupo grande e diverso de pessoas como um só indivíduo que comete o ato hipócrita. Por exemplo, se uma banda pop qualquer se desvia para uma veia punk, os fãs reclamam que o som não é mais mesmo. Então a banda sai desta fase e retorna às raízes, e os fãs reclamam que querem o toque punk de volta. Hipocrisia, certo? ERRADO. O problema aqui é que existem muitos fãs, portanto é óbvio que um grupo aprecia as mudanças e outros não. Temos, portanto, não uma incongruência individual, mas um conflito de interesses. O importante é lembrar que, quando se fala de grupos, é preciso provar que o comportamento inconsistente está sendo perpetuado pelas mesmas pessoas.

Em segundo, temos a hipocrisia condicional. Trata-se de um tipo de "espantalho", no sentido em que ataca-se não a um fato ou caso real, mas uma afirmação tirada do ar, ou mesmo das partes sujas do sujeito em questão. Falo, obviamente, dos sovacos. Enfim, se digo que "Fulana é chamada de vadia porque ficou com 10 homens na mesma noite, mas se fosse um homem seria aplaudido como um garanhão", isto é hipocrisia condicional. Antes de mais nada, se você está se coçando pra ir nos comentários me aporrinhar pelo exemplo, leia o maldito texto até o fim, por favor. Agora, voltando ao que interessa, a hipocrisia condicional se compõe de duas partes que se contradizem, com a ressalva de que a segunda parte depende de uma condição que, se não é inverificável, é apenas uma suposição sem base em fatos reais. Em casos extremos, mesmo a primeira parte é completamente fantasiosa.

E, finalmente, temos a hipocrisia arbitrária, que nada mais é do que um caso de non sequitur, ou seja, não existe nenhuma relação que justifique a hipocrisia. Nestes casos, a única razão porque o que se diz e o que se faz são incongruentes é porque o locutor assim o quis. É como dizer que tal e tal pessoa acha nojento mascar chiclete, mas volta e meia chupa uma bala de menta. No geral, se você pode responder "e o que o cu tem a ver com as calças", você tem nas mãos uma hipocrisia arbitrária.

E estas são as três falácias da hipocrisia. Importante notar que, diferente do que normalmente se acredita, uma falácia no meio da argumentação não invalida um argumento por si só. De fato, um argumento só é inválido quando é falso, e um argumento falacioso pode muito bem estar com a razão. É por isso que eu te mandei ler o texto até o fim.

Enfim, mesmo que não sejam condições necessárias e suficientes para uma falsa acusação de hipocrisia, estar atento a falhas de argumentação é sempre útil na hora de perceber se um argumento faz sentido ou, senão, é apenas uma imitação oca de um pensamento coerente. E, por outro lado, evitar estas pequenas faltas ajuda em muito a comunicar o seu ponto de vista.

Tenho certeza que Carl Sagan ficaria orgulhoso.