Bom dia, boa tarde, boa noite, caros leitores. Desde muito novo, me lembro de apenas uma constante no âmbito do quadrinho nacional que ainda persiste: Maurício de Sousa. A despeito desta colocação ser exagerada – e provavelmente fruto de minha péssima memória... além de que: o Ziraldo ainda faz quadrinhos? –, é inegável que a Turma da Mônica e demais derivagens são um de nossos mais característicos produtos de exportação no ramo. E, obviamente, depois de mais de 50 anos de produção as coisas tendem a mudar. Entre novos personagens, conceitos, mudanças de estilo e escolhas mirabolantes que deram certo (sim, a despeito dos saudosistas atacados, a Turma Jovem aparentemente vai muito bem, obrigado) e recentemente os penetrantes olhos de Maurício de Sousa se voltaram para o fenômeno relativamente recente das graphic novels1, e surge o projeto Graphic MSP. O primeiro número estrela um personagem periférico, mas que se mostra extremamente interessante.

Senhoras e senhores: Magnetar

A ilustração não tem muito a ver com a história, mas eu fiquei sem idéias...
A ilustração não tem muito a ver com a história, mas eu fiquei sem idéias...

Magnetar é uma história de Danilo Beyruth com o personagem Astronauta, um dos personagens siderais2 da Turma da Mônica. Nesta história, o Astronauta é enviado para investigar um magnetar, uma estrela de nêutrons com um campo magnético que emite radiação à medida que decai. Em suma, um gerador de pulso magnético gigante. Por causa disso a missão envolve grande risco, e quando as coisas dão errado o Astronauta é levado a seus limites para sobreviver e deixar o magnetar o mais rápido possível, enquanto analisa sua vida e as decisões que o levaram a essa situação mais do que complicada.

A bem da verdade, meu interesse pelos personagens marginais da Turma da Mônica sempre foi... bem, marginal. Não posso dizer que eu tenha "pegado" esses personagens por um bom tempo, e então eu já tinha crescido um bocado e atingido aquela idade em que você começa a tentar se desassociar de tudo aquilo que define a sua infância. Todo esse rodeio foi dado para que eu dissesse que não posso dizer que o Astronauta tenha sido meu personagem favorito, de forma alguma. Entretanto, como fã de ficção científica – embora recente, não faz nem 10 anos que li uma coletânea de contos incluindo vários de Asimov –, eu tenho uma apreciação tardia pelo personagem, como a ficção científica em formato de quadrinho infanto-juvenil continou funcionando muito bem, e devo dizer que em formato mais adulto e sério, bem... funciona ainda melhor.

Na realidade, a história funciona extremamente bem como uma obra em si só. A experiência nostálgica de reconhecer o Astronauta e toda a herança do personagem – a namorada que ele deixou pra trás, a infância com os avós no campo, a BRASA, a icônica roupa que ainda é mais improvável do que a nave – é uma sensação incrível por si só, de fato, mas fora isso a própria história se encarrega de apresentar este personagem ao leitor neófito e se completa sem precisar de conhecimento posterior. É, de fato, uma transposição para o estilo graphic novel (histórias grandes e auto-contidas) de um personagem do modelo periódico (histórias curtas e que se ligam, se não cronologicamente, tematicamente). É um novo olhar no imaginário de Maurício de Sousa e vê-se que claramente há um cuidado com a obra original, que é o ingrediente fundamental para um remake bem-sucedido.

E de resto, a arte de Beyruth se encaixa muito bem no roteiro e completa a releitura. Mas voltarei neste ponto quando falar de MSP Novos 50. Não percam.

Deixando de lado meu teaser deslavado, Magnetar é um sensacional 8.5/10. O livro peca um pouco por ser talvez um bocado curto, não que a história devesse ser esticada, veja bem, mas deixa um desejo de que venha mais, e funciona tão bem para antigos leitores da turma como para novos leitores, provavelmente melhor – pois, obviamente, a familiaridade é grande parte do apelo de um remake. E se este serve como um exemplo do que está por vir na série Graphic MSP, então eu estarei esperando pelos próximos, porque provavelmente não vão deixar a desejar.


1 Que, essencialmente, é apenas um sinônimo pedântico usado por gente tentando não sentir vergonha em admitir que lê quadrinhos. Como se quadrinhos não fossem uma forma de arte como qualquer outra. Qualquer coisa, fale com o senhor Scott McCloud.

2 Perdão pelo trocadilho, mas era irresistível