Quadrinhos são uma área nebulosa e cinzenta como literatura. Existe obviamente um preconceito artístico em incluir quadrinhos na categoria "literatura", ou mesmo "arte", preconceito este que foi grandemente alimentado pelo tratamento dos mesmos como "entretenimento" por muito tempo. E embora, de fato, os méritos literários de trabalhos vendidos em bancas por R$1,99 sejam de fato discutíveis, existe uma gama de trabalhos que mostra uma profundidade que vai além do "lado das crianças" da vasta piscina que é a arte sequencial.

Por exemplo, Maus.

MausMaus

Maus me lembra Watership Down, em alguns aspectos. À primeira vista, trata-se de uma história em quadrinhos onde todos os personagens são animais antropomorfizados – embora eu diria que são pessoas animalizadas, mas isso já pedantismo de minha parte – o que não costuma ser sinal de maturidade(ah, ledo engano...) Um olhar mais atencioso percebe os gatos nazistas e se dá conta de que isto é uma história do Holocausto onde, por acaso, judeus são retratados como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos e assim vai... quem é o que não é muito importante(bom, retratar judeus como ratos tem um subtexto histórico, de fato), mas a questão é que a coisa muda totalmente de figura, como dizem.

A história de Maus, portanto, é a história de um sobrevivente do Holocausto, mais especificamente Vladek Spiegelman, pai de Art Spiegelman, o autor. A narrativa intercala o presente de Art – ou relativo presente, visto que Maus é escrito meses depois de Art coletar a história de Vladek – e o passado de Vladek. Detalhes não são poupados e a narrativa é em varios pontos brutal, e geralmente extremamente pungente, e a arte acompanha a história perfeitamente. Esta é, afinal, uma história que invoca memórias sombrias...

Poderia-se dizer que Maus é uma obra que demonstra que a história em quadrinhos não está presa ao estigma infantil e trivial que lhe dão... mas isso seria desnecessário, com tantos outros clássicos já até mais antigos do que Maus presentes para provar isto. Tratando-o, portanto, como uma outra história qualquer em seus próprios méritos – e não em caráter especial por ser uma obra em arte sequencial – Maus é cativante, instigante e impressionantes, assustadora até. Vale a pena ser lida, relida e nunca esquecida.

Veredicto: 10/10