Em um daqueles raros momentos na minha carreira, falo de um lançamento deveras recente. Em tal situação, entendo que a cautela em não deixar escapar detalhes reveladores da trama deve ser ainda maior, e isto é ainda mais verdade neste caso, em que meu ponto principal de atenção é justamente a porção final do filme. Deixemos isto então para o final e vejamos o que há para ser dito sobre a última parte da trilogia do Batman de Nolan.

Senhoras e senhores, o Morcego
Senhoras e senhores, o Morcego

O Cavaleiro das Trevas Ressurge começa alguns anos após o final de O Cavaleiro das Trevas, em uma Gotham em que o crime organizado – e aparentemente grande parte do crime em geral – foi erradicado pelo Ato Dent e, como outra consequência dos filmes anteriores, a figura do Batman é desnecessária. Neste contexto, surge um novo vilão, Bane, um anarquista do qual pouco se sabe, que tem planos para despedaçar a estrutura social de Gotham. Como esperado, Bruce Wayne deve colocar novamente seu disfarce de homem-morcego para salvar Gotham com a difícil cooperação da criminosa Selina Kyle – que, embora não seja referida como tal, é a Mulher-Gato, só pra deixar as coisas bem claras.

Talvez não pareça, mas ele é um vilão de respeito
Talvez não pareça, mas ele é um vilão de respeito
Este é um resumo bastante simplório de toda a trama do filme, deixando de lado vários pontos que são importantes para o desenrolar da história porque, novamente, este é um filme recente e creio que vários de vocês ainda não tiveram a oportunidade de vê-lo. Para vocês que já assistiram ao filme, uma opinião mais completa a respeito do final da história – que muito me incomoda, aliás – se encontra após o veredicto. Se você ainda não viu e planeja ver – e não desenvolveu uma bizarra imunidade a spoilers como eu – recomendo que pare de ler assim que chegar à nota. Acho que minha conclusão até este ponto será suficiente para você.

Porque esta conclusão é de que, no cômputo geral, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um "filmaço", digno do nome de Nolan. Ele funciona perfeitamente bem como um fecho para a trilogia – embora no quesito desfecho ele me incomode, mas isso não importa no momento –, dando uma conclusão ao início de "Batman Begins" e ao clímax de "O Cavaleiro das Trevas". A história tem vários pontos que se encaixam e se explicam de forma satisfatória, e bastante espaço é dado para outros personagens que não são Bruce Wayne brilharem e mostrarem seu potencial. Em relação ao visual, música e ação... bem, tudo isto segue o mesmo padrão Nolan que já foi estabelecido nos filmes anteriores. Tudo isso não deixa nada a desejar.

OLÁ Anne Hathaway
OLÁ Anne Hathaway
E, em um espaço à parte, temos o vilão da história, Bane. Um personagem heróico é grandemente definido pelos seus vilões, e novamente Nolan nos presenteia com um vilão que enche a tela, um líder terrorista anárquico que funciona, a grossíssimo modo, como o Curinga de Ledger, mas extremamente mais organizado e eficiente. Bane é imponente pelo carisma e também pela força – o que aliás já era esperado, visto que o personagem original é conhecido pela clássica cena que é reproduzida no meio do filme em um momento tenso – e é uma ameaça crescente que fortalece a tensão do filme cada vez mais a cada aparição. Minha única decepção – e será a única, descontando o segmento após o final – é que não tenha havido mais vilões clássicos neste filme (não sei se conta como spoiler pra você, mas a Mulher-Gato não é bem uma vilã nesse filme), visto que um dos pontos importantes do filme anterior era o fato de que vilões como o Curinga são a resposta do crime ao fortalecimento das forças da lei e da ordem que é a figura do Batman. Em outras palavras, este filme poderia ser uma batalha épica de uma liga de super-vilões da galeria do Batman, talvez com objetivos diferentes, e ainda assim não seria uma bagunça total ou, ao menos, seria uma bagunça organizada. Por outro lado, poderia ser como Homem-Aranha 3 e acho que nem gostaria disso. Portanto, mantenho meu ponto sobre o tema esquecido, mas deixo apenas como isso: uma observação crítica.

Afinal, qual é o veredicto? Bem, o veredicto é simples: se você assistiu e gosto de Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas, este é um filme para você. Assista para concluir a trilogia e tire suas próprias conclusões a respeito da finalização de Nolan, e tenho certeza que você não se arrependerá, especialmente se for um fã do Batman ou da trilogia(ou, o que provavelmente é o caso, de ambos).

Veredicto: 8,0/10,0

CUIDADO! ALÉM DESTE PONTO HÁ DRAGÕES SPOILERS

Então, após tudo o que eu disse acima, a maior razão para a nota ótima, mas não excelente, que dirá perfeita, de O Cavaleiro das Trevas se deve ao assunto de que vou tratar nestes poucos(espero) parágrafos. Ou seja: o final do filme. Arrisco até a dizer o momento exato em que o filme começou a desandar, e é no momento em que Talia Al Ghul revela sua verdadeira face. Porque neste exato momento Bane simplesmente murcha, o que não seria um problema se ele tivesse de fato morrido ali depois do último confronto "mano a mano" com o Batman, mas infelizmente ele é salvo mas não tem mais nada da ameaça que ele representava até poucos minutos antes. E clarifico aqui que o problema não é Talia em si, até porque a personagem põe sentido em muitos pontos do filme – em especial, a sequência em que o Comissário tenta encontrar a bomba dentro dos caminhões revestidos de chumbo –, mas este ponto coincide exatamente com o ponto em que Bane passa de vilão majestoso e sensacional para um cão arrependido.

E embora há outros pontos que me incomodem em grau menor e, eu diria até, de forma mesquinha – o real nome de Tim Blake e a aparição súbita do Alfred –, meu maior problema com o final do filme está em sua cena final – ou quase final – em que temos a confirmação inegável de que, a despeito de toda a sequência da eliminação da bomba nuclear, Bruce Wayne sobreviveu à explosão. Neste exato momento eu, sentado em minha poltrona no cinema, disse para mim mesmo(dirigindo-me a um Cristopher Nolan imaginário que pudesse me ouvir) "não, seu desgraçado. Não" Razão? Simples: depois de todo o investimento emocional no sacrifício de Bruce, com toda a temática subtextual de que o Batman não é um indivíduo, mas um ícone, e que Bruce Wayne deve deixar o ícone ser passado para frente – além da implicação de que, mais cedo ou mais tarde, ele seria necessário novamente mesmo com as ruas livres do crime –, a súbita sobrevivência de Bruce Wayne, feita explícita pela cena final – que vale ao menos pela felicidade do Alfred, e olhe lá – é praticamente trapaça. Isso sem contar no quanto isso seria impossível a não ser pelas mãos de um deus ex machina, visto que ele é mostrado dentro do "Morcego" com meros segundos para a explosão, acima do mar. A única maneira que o Batman teria saído dessa situação seria desintegrado ou esmigalhado pela tensão superficial da água(e energia cinética, dada a velocidade necessária para que a explosão estivesse longe o bastante para não afetá-lo).

E não, "ele é o Batman" não funciona como explicação para isso ou para o fato de que ele simplesmente voltou para Gotham do meio de um deserto em algum lugar do Oriente Médio sem um tostão e entrou na cidade como se nada estivesse acontecendo, que dirá um estado de sítio anarquista. E quanto à observação sobre o patch do piloto automático, eu sinceramente achei que isso funcionaria melhor como uma confirmação de que o sacrifício foi deliberado.

Enfim: debate-se se o final deveria ter sido aberto ou não, com uma cena menos explícita que não mostrasse Bruce vivo e feliz no mesmo café na Riviera(ou seria Florença?) em que Alfred estava curtindo sua aposentadoria. Mas o problema que tenho não é nem isso, é que o final em si não funcionou, simplesmente dizendo. A lógica interna do filme simplesmente se desfez naquele momento e, embora isto não tenha desfeito toda a magnificência que o filme teve até aquele momento, eu me senti enganado, e não num bom sentido – como aquela enganação em que você reconhece e respeita o talento do traidor. Na realidade, o comprimento exagerado do filme me faz pensar que este final tenha sido composto às pressas porque o filme estaria longo demais e não houve tempo para atar todas as pontas da trama direito.

Não é que eu queira o Batman morto. É que, do ponto de vista da história, da narrativa, um Batman morto cria muito mais impacto na história do que um final feliz que destoa quase completamente do resto do filme. E, com a trilogia terminada e um reboot bastante provável no futuro, não há nem a desculpa de que precisariam dele para a continuação.