Jostein Gaarder é mais conhecido – se é que é conhecido – pelo seu livro de filosofia entitulado O Mundo de Sofia. O Mundo de Sofia é em iguais partes mistério ontológico e livro didático, e talvez responsável por qualquer interesse por filosofia causado em jovens em idade de Ensino Médio, o que não é um feito de se fazer pouco caso. Mas esta resenha não é sobre o Mundo de Sofia. É um livro ótimo, mas tenho em mente outro livro no momento.

Antes de seu livro mais conhecido, Gaarder publicou outro livro, mais curto e escrito em estilo diferente, mas que possui vários pontos comuns com sua obra futura. Este livro contava a história de um pai e seu filho viajando pela Europa em procura da mãe do rapaz, enquanto este rapaz descobre fatos assombrosos sobres sua própria família através de um pequeno livro dado a ele por um misterioso padeiro enquanto seu pai lhe explica fragmentos de filosofia. Este livro é O Dia do Curinga.

O Dia do Curinga/The Solitaire MysteryO Dia do Curinga/The Solitaire Mystery
Se você, como eu, teve seu primeiro contanto com Gaarder através de Sofia, provavelmente irá notar as semelhanças com mais clareza, devido ao estranho efeito que é ter a impressão de que já viu algo antes, quando na verdade deveria ter sido depois. Em outras palavras, uma espécie de dejavu num espaço-tempo digno de Escher. Mas divago. Ambos os livros possuem elementos comuns: um protagonista juvenil e figuras paterna e materna que se alternam no papel de guardião presente mas quase ignorante do que se passa, enquanto o outro está literalmente ausente por quase toda a história(os sexos se invertem, aliás, nos dois livros); uma figura quase mítica que traz o protagonista para dentro da trama quase sobrenatural; uma outra história dentro da própria história; o tema subtextual da relação entre criatura e criador... e outras semelhanças temáticas, mas isto foge daquilo que mais chama a atenção no processo da leitura: Gaarder literalmente repete trechos de Curinga em Sofia, em destaque sua analogia com o baralho e o significado do Curinga, que em Sofia é relacionado a Sócrates e em Curinga ao pai de Hans(ou não), e em ambos é um símbolo do filósofo.

O Dia do Curinga, dividido tematicamente em 53 capítulos, mostra sinais do processo de melhora que Gaarder passou entre este e seu sucessor. A história principal não é tão envolvente quanto em O Mundo de Sofia, e a história B, contada pelo estranho livro, puxa mais a atenção e o interesse do leitor, tornando a narrativa algo como um intervalo no meio do espetáculo mais esperado. Por outro lado, as lições filosóficas são apresentadas de maneira mais sutil e menos didaticamente organizadas em Curinga – embora, considerando sua classificação como livro de filosofia, isto não seja um ponto contra Sofia.

Enfim, este é um livro de história com toques de filosofia, enquanto O Mundo de Sofia seria um livro de filosofia com toques de história. E nenhum dos dois é exatamente pior do que o outro por isso. Se você já leu "O Mundo de Sofia", recomendo também ler "O Dia do Curinga". Se não, recomendo ler os dois.

Veredicto: 8.5/10