O que era para ser a "Quarta da Opinião" será publicado na quinta porque, infelizmente, tempo não dá em árvore. E se dá, não nos deram as mudas. Enfim, o escândalo da vez sobre o qual gostaria de comentar é o caso Ministério Público de Uberlândia vs. dicionário Houaiss, com ciganos metidos em algum lugar no meio.

Explico: por alguma ou outra medida definiu-se que a definição da palavra "cigano" no dicionário Houaiss é de cunho pejorativo e deve ser retirada e circulação o quanto antes. Cito-a: "Uso pejorativo: que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador". Segundo o senhor procurador Cléber Eustáquio Neves, a quem estou evitando com todas as forças referir no restante do texto como "a mula da vez", isto constitui crime de racismo segundo o artigo 20 da Lei 7.716/89. Não acho que fique mais claro do que está, certo?

Pois bem. Tiro logo de cara da frente os argumentos óbvios contra censura e o maldito politicamente correto. Primeiro porque acho que reclamar do "politicamente correto" como se ele fosse uma coisa – não sei onde quero chegar com isso, mas tá valendo – é mais ou menos como bater num cavalo morto com um gato falecido. E eu não gosto de bater em teclas repetidas. Meu problema com isso é que, se isso pegar, estamos correndo o risco de adquirir esse hábito de esconder nossos preconceitos dos olhos públicos.

Explico, novamente: você pode me dizer que conhece um cigano, ou que estudou sobre ciganos, ou que assistiu um documentário sobre ciganos... enfim, se você me disser que este preconceito é mentira, eu acredito, não só porque em princípio confiar em preconceitos é um caminho para o erro, mas também porque não dá pra acreditar que alguém nasça com predisposição pra malandragem só por ser de uma nação ou outra. Enfim, é uma noção imbecil. Mas tem uma coisa sobre preconceito que eu acho que vale a pena mencionar: é uma coisa cultural. Sempre tem uma bagagem, um contexto... e, se por um lado ninguém quer ser acusado de racismo – especialmente se você não o é –, essa definição pejorativa – veja bem, pejorativa – veio de algum lugar. A noção de que um cigano é alguém que rouba seu cavalo e depois o vende de volta pelo dobro do preço não simplesmente brota do chão. E o ponto aonde quero chegar é que esse tipo de coisa é como uma toupeira: você pode tapar todos as saídas de toca que você vê, mas algum dia a toupeira vai cavar de volta.

Ou seja, vale a velha máxima: aquele que esquece sua História está fadado a cometer os mesmos erros de novo e de novo. Ou, o que geralmente ocorre, fazer ainda pior.

"Mas seu Talpos, você não percebe que isto é um dicionário e que as pessoas confiam nele pra saber o que as coisas significam?" E você, sua anta, se esquece de que como todo bom dicionário ele deixa bem claro que definições deste tipo são figurativas e pejorativas e não representam a realidade? Você ignora que, em geral, uma pessoa pergunta a outros à sua volta o que uma palavra significa ao invés de procurar num dicionário de uma vez, até porque pouca gente carrega dicionário consigo a todo momento? Você, criatura, não imagina que se uma pessoa não vai aprender pelo dicionário que o cigano é, acima de tudo, um espertalhão, ela pode aprender de praticamente qualquer outro lugar?

Então, como todo bom colunista polêmico, termino minha argumentação com uma afirmação bombástica: se vamos continuar nesse rumo, que apaguemos a Lei Áurea de nossos registros e vamos fingir que jamais houve escravidão de negros no Brasil. Ou o massacre a indígenas. Ou o êxodo rural nos meados do século XX. Vamos fingir que nunca jamais tivemos idéias erradas ou preconceitos e que vivemos sempre em um mundo de igualdade tratemento humanitário a todos.

E talvez, algum dia, vamos de novo alimentar os preconceitos que nossa natureza humana falha insiste em criar. Parece-me um ótimo plano!