Uma das piores experiências no campo de escrever resenhas é se dar ao serviço de resenhar algo feito por alguém que você conheça, mesmo que a pessoa não te conheça. Você acaba no dilema entre não querer ser negativo demais, onde demais significa qualquer quantidade que não seja nula; e não querer parecer estar obviamente protegendo a pessoa e ser, em suma, um sicofanta. E, no final das contas, quando sua descrição de serviço inclui ser desagradável quando necessário, a situação fica, digamos, difícil de lidar. Então eu resolvi entrar nesse desafio com O Espadachim de Carvão, do Affonso Solano – o mesmo Affonso Solano do Matando Robôs Gigantes, se é que há mais de um Affonso Solano.

O Espadachim de Carvão... Mineral
O Espadachim de Carvão... Mineral

O Espadachim de Carvão é um épico de fantasia e aventura protagonizado por Adapak, um jovem espadachim – jura? – que é filho de um dos quatro deuses que criaram o mundo de Kurgala e suas fantásticas criaturas. Adapak se vê em extremos apuros quando um bando de assassinos aparece em seu encalço, e ele precisa usar toda a sua astúcia, perícia e habilidade – acho que algumas dessas palavras são sinônimos, mas enfim – para sobreviver num mundo que ele pouco conhece e descobrir porque ele está sendo caçado. A história se passa em um mundo original, com mitologia, biologia, geografia e antropologia que são muito diversas das nossas, embora às vezes sejam muito parecidas, bem no fundo.

Este é um problema do livro, mas vou chegar nisso depois. Voltemos às coisas boas.

A narrativa é bem magnética, e a alternância temporal da história – que muda entre flashback e história principal constantemente – consegue manter o suspense vivo ao final de cada capítulo. Além disso, o andamento da história e seu plano de fundo levam a vários momentos de genialidade tardia, aquele "estalo", aquele "Aaaaah..." de repentino entendimento, quando um pouco mais da vida pregressa de Adapak joga uma nova luz sobre vários fatos sobre os quais lemos no decorrer da aventura. Em suma, é uma boa história em um mundo colorido e incrível, dentro do qual o leitor é jogado sem nenhum aviso sequer.

Capa
Capa
E daí que eu acho que O Espadachim de Carvão se beneficiaria muito em ter um "Guia Ilustrado de Kurgala" ou algo do gênero. Até porque o autor criou as vinhetas ilustrativas do livro (versão física) e está de parabéns.

A questão de Kurgala ser um mundo de fantasia extremamente rico e surpreendente é o que coloca o cérebro em primeira marcha no início da história, quando o leitor é praticamente bombardeado com termos e nomes que por um bom tempo não significam basicamente nada. Pode-se argumentar que o leitor fã do gênero fantástico se acostuma a esta situação com facilidade, mas em geral aprecia também mais informações na forma de apêndices e documentos suplementares, especialmente quando são escritos de forma a se integrar no próprio universo que descreve – ou seja, com um autor ficcional.

Ou talvez este seja só eu, e nesse caso isto fica apenas como uma sugestão velada de um suplemento para este ótimo livro.

Enfim, O Espadachim de Carvão surge como um sopro de sais no meu adormecido amor pela literatura de fantasia nacional, que há muito tempo tinha acompanhado Holy Avenger até o fim e não faz nem idéia do que anda acontecendo com o universo "oficial" do antigo 3D&T, Tormenta. Se você não faz idéia do que bulhufas sejam essas coisas, não se preocupe. Fique apenas com meu veredicto de 8.5/10 para um livro de fantasia sensacional, com uma história emocionante e atraente com personagens cativantes, embora tenha um início meio acidentado e súbito – mas tudo se encaixa depois, eu prometo – e talvez seja pequeno demais para o vasto mundo em que se passa.

Se bem que uma sequência não parece nada improvável no momento. Aguardemos ansionsamente...