Começarei com uma confissão: demorei a descobrir que Malba Tahan não era, de fato, árabe, ou sequer decendente de árabes. Ou mesmo muçulmano(bom, aí já não tenho certeza). Ignoro se este detalhe já era revelado nas edições dos livros que li quando adolescente – antigos, aliás –, mas fato é que passei uma boa época crendo que Ali Yezid Izz-Eddin Ibn Salim Hank Malba Tahan era uma pessoa real. Real ou não, ele escreveu "O Homem Que Calculava" e, bem, há coisas a serem ditas sobre o livro.

O Homem Que Calculava, CapaO Homem Que Calculava, Capa

O Homem Que Calculava conta a história de Hank Tade-Maiá, de Bagdá, e aquele que é o foco principal da história, o prodigioso matemático Beremiz Samir, que vivem dias interessantes quando o Bagdali apresenta o calculista para a alta sociedade árabe, o que eventualmente culmina em um grande desafio de matemática e um romance improvável entre um professor e sua aprendiz. Mas há mais do que isso, pois, a meu ver, a narrativa de O Homem que Calculava é, sinceramente, pobre.

Narrativa esta que é bastante episódica. Há encontros do narrador e do calculista com indivíduos que, coincidentemente, têm um problema para ser resolvido. O enigma é complicado – ninguém conseguiu resolvê-lo até então –, há tensão mas a solução elegante e perfeita é prontamente dada por Beremiz e recompensas são distribuídas. Volte ao início e conte outra vez. As reações do narrador chegam a se tornar clichês, e todas as falas são floreadas – o que acredito ser do estilo árabe de contar histórias. Os obstáculos que não podem ser resolvidos com a matemática em geral desaparecem com facilidade, e as habilidades de Beremiz são exageradamente convenientes. Porém...

Vejo O Homem Que Calculava não como uma história em si, mas algo como um conto de fadas. Um conto de maometanos, se preferir. A narrativa de contos de fadas em geral têm estruturas simples e variação frugal, mas isso é porque a narrativa é meramente um veículo para a didática. E neste ponto O Homem Que Calculava merece todo o prestígio que tem, porque a sua didática é excepcional – especialmente considerando a época de sua escrita – e existe muito conhecimento boiando pelo mar de palavras da história que o livro encerra. Problemas de lógica e matemática, história do cálculo, da aritmética e da filosofia, lendas do mundo oriental andam lado a lado em meio a detalhes culturais das regiões islâmicas que – ao menos creio eu – foram extensivamente pesquisados pelo autor. Há muito a ser aprendido e a leitura, se não é um primor da arte literária, é lúdica e cumpre seu papel de carregar às costas todo esse conhecimento para o leitor.

Seria injusto julgar o livro pela originalidade de seus problemas nos dias de hoje, ou por sua filosofia agregada há mais de meio século – diga-se de passagem, aliás, que é sublime; Malba escolheu bem seus filósofos –, mas ainda assim poucos livros infanto-juvenis envelheceram tão graciosamente quanto ele. Me espanta, aliás, que não seja material de leitura em escolas, ao invés das obras maçantes do romantismo brasileiro de primeira e segunda gerações – que fique claro o contexto desta afirmação, aliás: peça a um jovem de lá 12 anos para ler Os Lusíadas e conte em quanto tempo ele cai no sono –, mas não irei entrar em méritos pedagógicos. Afirmo apenas que O Homem Que Calculava é um paradidático que merece ser lido e compartilhado.

E, quando eu conseguir colocar minhas garras me Maktub e/ou Mil Histórias Sem Fim, falaremos mais de literatura árabe pela própria literatura. Em breve, espero eu...

Veredicto: 4/5